Uso de drogas na Segunda Guerra Mundial
Descubra como o uso de drogas na Segunda Guerra Mundial afetou Hitler, soldados nazistas e o ritmo das batalhas, mudando decisões, estratégias e alianças...
2ª GMESTUDAR HISTÓRIACURIOSIDADES
Charles M. Müller
1/4/20269 min ler


Quando a gente pensa na Segunda Guerra Mundial, normalmente aparecem na cabeça tanques, bombas, trincheiras, campos de concentração, grandes líderes políticos… Mas tem um personagem silencioso que ajudou a mudar o ritmo da guerra e quase nunca aparece nos livros didáticos: as drogas.
Cocaína, morfina e, principalmente, metanfetamina em comprimidos (o famoso Pervitin) circularam em quantidades absurdas entre soldados e oficiais nazistas – inclusive o próprio Hitler. Em alguns momentos, esses remédios deram vantagem tática à Alemanha. Em outros, ajudaram a empurrar o Terceiro Reich para o colapso.
Este texto é um “versão estendida” das tuas postagens em carrossel: mesma pegada irônica, mas com mais contexto histórico para usar no blog.
1. Antes da guerra: o “cartel de Berlim”
Muito antes de Hitler, a Alemanha já tinha um pé na química pesada.
Se existisse série ‘Narcos: Berlim’, os protagonistas seriam assim…
No início do século XIX, o farmacêutico Friedrich Sertürner isolou o princípio ativo do ópio: a morfina. Décadas depois, a empresa alemã Bayer colocou no mercado um derivado do ópio com um nome que parecia inofensivo: heroína. Era vendida em farmácias como remédio para tosse, insônia, enjoo e “mal-estar em geral”.
O negócio deu tão certo que outro laboratório alemão, a Merck, entrou na disputa com produtos semelhantes. Resultado: no período entre a Primeira e a Segunda Guerra, a indústria farmacêutica alemã se tornou uma potência. Sem cultivar um único pé de papoula, o país exportava quase metade da morfina do mundo e atendia a maior parte da demanda global por derivados de ópio e cocaína.
Ou seja: quando chegou o nazismo, a infraestrutura química já estava pronta. Faltava alguém disposto a usar isso em escala militar.
2. Nasce o Pervitin: metanfetamina “de farmácia”
Em 1919, o químico japonês Akira Ogata sintetizou pela primeira vez a metanfetamina. A substância aumenta a liberação de dopamina no cérebro, gerando euforia, sensação de energia infinita e, de quebra, tirando o sono por horas.
As empresas logo aprenderam a produzir a droga em laboratório. Na Alemanha, o laboratório Temmler lançou o comprimido de metanfetamina com um nome que soava moderno e inofensivo: Pervitin.
Era vendido como:
estimulante para cansaço;
remédio para depressão;
ajuda para “frieza sexual”;
e até tratamento para… vício em outras drogas.
Tomar Pervitin virou algo tão normal que, como diz o escritor Norman Ohler, engolir um comprimido fazia parte da rotina tanto quanto tomar uma xícara de café.
Quando Hitler decidiu transformar a Alemanha em máquina de guerra, dopar os soldados com esse “cafezinho turbo” pareceu uma ideia natural.
3. Um exército movido a comprimidos
Spitfire britânico x caça alemão Bf 109: batalha também travada na base do comprimido
Logo no início da guerra, em 1939, durante a invasão da Polônia, os relatórios médicos já registravam soldados alemães com sinais de euforia, atenção extrema e redução do sono. Era o Pervitin fazendo efeito.
Mas o grande teste veio em 1940.
A Luftwaffe (força aérea alemã) tentava derrotar a Grã-Bretanha. Durante o dia, os ingleses resistiam bem: o Spitfire britânico era superior ao Bf 109 alemão. A saída foi mudar de tática: ataques surpresa de madrugada, explorando a escuridão.
Tinha um problema: os pilotos passavam o dia inteiro tensos e acordados, decolavam à noite, voavam até de manhã… e, quando estavam se aproximando do espaço aéreo inimigo, o corpo estava em frangalhos. O cansaço ameaçava derrubar a estratégia antes de derrubar os aviões britânicos.
Foi aí que entrou o “suplemento surpresa”.
Os pilotos deslizavam a mão pelo macacão de voo, pegavam um ou dois comprimidos de cor leitosa do bolso, tiravam a máscara de oxigênio, engoliam o remédio a seco e voltavam a pilotar. Em poucos minutos:
o coração acelerava;
o sono sumia;
o medo diminuía;
a sensação era de força e foco quase sobre-humanos.
Um piloto da Luftwaffe descreveu em diário:
“Tudo se torna secundário e abstrato. Sinto-me afastado, como se eu mesmo estivesse voando sobre o meu avião.”
Segundo Ohler, foram distribuídos cerca de 35 milhões de comprimidos de Pervitin para as tropas alemãs. Esse “estoque de energia química” foi um dos combustíveis da Blitzkrieg, a guerra relâmpago que, em poucas semanas, rompeu fronteiras e levou os nazistas até Paris.
4. O preço da euforia: a ressaca nazista
Claro que a conta chegou.
A metanfetamina não é café forte; é uma droga pesada, com efeitos colaterais sérios. Entre eles:
Cérebro – risco de lesões, prejuízo da fala, da concentração e da memória; surtos psicóticos.
Fígado – aumento de toxinas no sangue, sobrecarga hepática.
Rins – rabdomiólise (destruição muscular) que libera substâncias tóxicas, podendo levar à falência renal.
Coração – pressão arterial nas alturas, hipertensão crônica e risco de infarto.
Sistema digestivo – dores abdominais e distúrbios intestinais prolongados.
Com o tempo, começaram a aparecer relatos de:
colapsos nervosos;
surtos paranoicos;
soldados que simplesmente “apagavam” depois de longos períodos acordados à força.
A própria velocidade das conquistas iniciais criou um problema: manter um exército inteiro dopado e avançando sem pausa era insustentável.
5. Theodor Morell: o “dealer do Führer”
Enquanto as tropas tomavam comprimidos, Hitler tinha um fornecedor particular: o médico Theodor Morell.
Morell não era exatamente o estereótipo de médico de confiança. Figura antipática, interesseiro, aproximou-se do Partido Nazista nos anos 1930 para ganhar clientes influentes em Berlim. Sua especialidade era aplicar injeções de “vitaminas” e suplementos diretamente na veia de empresários e celebridades.
Em 1936, tratou o fotógrafo oficial do partido, Heinrich Hoffmann, e, por meio dele, conheceu o próprio Hitler. O líder nazista reclamava de dores crônicas de estômago, gases e problemas de pele nas pernas. Morell receitou uma mistura de bactérias para flora intestinal – e Hitler melhorou. Pronto: ganhou um paciente cativo.
Daí em diante, a relação virou dependência. Os diários de Morell registram:
mais de 1.100 doses de medicamentos aplicadas em Hitler;
pelo menos 800 injeções em cerca de três anos;
uso constante de testosterona, metanfetamina, morfina e outros estimulantes.
Antes de grandes discursos, Hitler pedia uma “injeção de energia” para ficar mais confiante. Quando as coisas começaram a desandar na frente oriental, entrou em cena também a morfina, analgésico que traz sensação de relaxamento e euforia.
Nas fases finais da guerra, Hitler já apresentava sintomas clássicos de dependência: tremores, alterações bruscas de humor, insônia, crises de paranoia e necessidade de doses cada vez maiores.
6. De Paris ao bunker: quando a química deixa de ajudar
Por um tempo, a combinação entre Pervitin nas tropas e coquetéis químicos no alto comando funcionou como uma espécie de turbo militar. A invasão da França em 1940 é um exemplo: relatos de soldados contam que marcharam dias quase sem dormir, embalados por metanfetamina.
Mas a euforia dopamínica não dura para sempre.
Com o prolongamento da guerra e a entrada da União Soviética e dos Estados Unidos no conflito, a máquina nazista começou a ranger. A partir de 1943–44:
crescem os casos de infarto, esgotamento nervoso e colapsos mentais entre militares;
Hitler apresenta aparência envelhecida, postura curvada, tremores constantes;
o próprio Morell tenta “compensar” problemas físicos com novas drogas, incluindo cocaína aplicada no nariz.
Segundo os registros, Hitler passa a usar combinações de cocaína com morfina – o que hoje se chamaria speedball. Em vez de clareza estratégica, isso produz impulsividade, irritação e dificuldade de avaliação realista.
Nas últimas semanas do Terceiro Reich, com Berlim cercada, o cenário é descontrolado: Hitler grita com generais, vê traição em todo lugar, muda planos o tempo todo. Sem suprimentos e sem solução militar, apela à “química” até o fim, mas já não há droga que reverta a derrota.
No bunker, distribui cápsulas de cianeto aos mais próximos, oficializa o casamento com Eva Braun e, por fim, tira a própria vida. O mundo se livra de um ditador – e, junto com ele, de um viciado em poder e em substâncias químicas.
7. Afinal, as drogas mudaram o desfecho da guerra?
Dizer que as drogas sozinhas decidiram a Segunda Guerra seria exagero. Houve estratégias militares, produção industrial, alianças políticas, resistência dos povos ocupados, e – o mais importante – o peso monstruoso dos crimes nazistas.
Mas a química teve, sim, papel relevante:
Acelerou as vitórias iniciais, permitindo ofensivas contínuas com soldados sem dormir por dias.
Aumentou a brutalidade, com tropas dopadas, menos inibidas e mais agressivas.
Cobrando depois um preço alto, com “ressaca nazista”: corpos e mentes se deteriorando, decisões cada vez mais irracionais no comando e uma máquina de guerra que não conseguia mais acompanhar o próprio ritmo.
No fim, o mesmo coquetel químico que ajudou a impulsionar o avanço idealizado por Hitler também participou do colapso físico e psicológico do regime.
8. Como usar esse tema em sala de aula (e no seu café da tarde)
Para além do choque, o tema abre espaço para ótimas conversas em sala:
o papel da ciência e da indústria farmacêutica em contextos de guerra;
questões éticas sobre uso de drogas para desempenho (militar, esportivo, acadêmico);
como dependência química e decisões políticas podem se misturar.
E, claro, dá gancho para aquele meme inevitável: quando o café do professor não dá conta, mas a gente agradece que a nossa vida escolar não dependa de 35 milhões de comprimidos de metanfetamina.
Quer se aprofundar? Livros para entender a química da 2ª Guerra
Mesmo com todos esses memes e exageros visuais, o tema é sério: a 2ª Guerra foi também uma guerra química – não só de armas, mas de drogas legais, “remédios milagrosos” e estimulantes distribuídos em escala industrial.
Se você quiser ir além do resumo e mergulhar mais fundo nessa história, separei alguns livros que ajudam a entender melhor o papel das drogas no nazismo e no conflito como um todo:
“High Hitler: como as drogas ajudaram o Terceiro Reich a ganhar e perder a guerra” – Norman Ohler
A leitura de base pra esse assunto. O livro mostra, com documentos e diários médicos, como o Pervitin (metanfetamina) virou “combustível oficial” dos soldados alemães – e como Hitler foi se transformando em um dependente químico, cercado de injeções diárias.“Blitzed: Drugs in the Third Reich” – Norman Ohler (edição em inglês)
É o mesmo autor de High Hitler, mas com foco maior no público internacional. Se você lê em inglês, vale para comparar traduções e aproveitar notas e termos que às vezes se perdem na versão em português.“A Segunda Guerra Mundial” – Antony Beevor (ou outro panorama geral da guerra)
Não é só sobre drogas, mas dá o contexto completo: frentes de batalha, decisões estratégicas, viradas da guerra. Ótimo para encaixar o tema das drogas dentro do quadro maior do conflito.Biografias de Hitler e estudos sobre o Terceiro Reich
Biografias mais recentes costumam trazer capítulos ou seções específicas sobre a relação de Hitler com seu médico particular, Theodor Morell, e o uso de “injeções energéticas” ao longo da guerra.
Se você curte História com contexto, bastidores e esse lado menos óbvio da 2ª Guerra, vale demais ler pelo menos um desses livros. Além de aprender mais, ao comprar pelos meus links de afiliado você ajuda a manter o História com Bolacha vivo – pagando o mesmo preço, mas mandando uns centavinhos de comissão pra cá.
Depois de ler, volta aqui e me conta: o que mais te chocou, o exército dopado ou o nível de dependência química do próprio Führer?





















































